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Amamentação e apoio


Eu morei 2 anos num dos países mais pobres da África, o Malawi. Quando a mulher paria era cuidada pelas mulheres mais velhas da vila, mãe, tias, anciães. Elas ensinavam as mães como amamentar seus bebês. Todas amamentavam, inclusive as com AIDS (lá é liberado, pois a chance de morrer de desnutrição é maior do que a transmissão via leite materno). Eles não têm opção, pois uma lata de leite artificial custa mais que o salário do mês. Não existe os dilemas que temos (pouco leite, meu bico é plano, meu bebê chora). Elas amamentam e pronto, apoiadas pelas mais velhas. Os bebês estão sempre juntos ao corpo.

Muitas vezes chegam ao consultório bebês que não fiz os primeiros atendimentos e nem consulta pré-natal. Parte destes bebês chega já usando leite artificial. E eu questiono o por quê do uso da fórmula. A resposta mais comum: porque o bebê chora, deve estar com fome. E eu faço a leitura desta mãe: geralmente tensa, insegura, segurando-se para não desabar em lágrimas.

Por que a única relação que fazemos com o choro do bebê é fome?

Os bebês acabaram de sair da proteção do útero, não enxergam nada, acham que vão morrer a qualquer momento e precisam de proteção. Qual a única forma de comunicação que eles têm? Choro!

E eles choram para procurar a única pessoa que no mundinho deles pode protegê-los: a mãe. E eles buscam o seio. Mamar não é apenas alimento, é colo, é aconchego, é segurança. Estando no seio da mãe, eles estão protegidos do mundo.

Nesta primeira fase de vida, bebê e mãe funcionam como um só.E este bebê pode chorar também as dores da mãe. O bebê chora o parto que não foi como o esperado. Chora a solidão materna. Chora o luto daquela mulher que renasce como mãe.

E o que esta mãe pode fazer? Chorar também as suas dores. Falar sobre os seus sentimentos. Ter contato físico, abraço, colo dos seus familiares. Acreditar no seu corpo. Afinal a natureza não faria um corpo que não funcionasse, que não produzisse leite.

É incrível que quando estas mães relaxam, tomam consciência do poder do seu corpo, o leite flui.

Este bebê que chora tem uma necessidade intrínseca de contato. Ele precisa do pele a pele com sua mãe. E ele chora por isso.

Mas por que eles acalmam quando recebem uma fórmula? Porque é uma feijoada! O corpo leva muito tempo para digerir. E muitas vezes é dado muito mais do que cabe no estômago. Talvez em algum momento ele até possa precisar de uma fórmula, mas depois de esgotada todas possibilidades.


Mas já notaram como eles acalmam mais ainda ao seio?

E o que fazer quando o bebê chora? Acolher! Dar o seio. Entrar em contato com a sombra desta mãe e trabalhar suas próprias dores. Ser um apoio desta mãe.

Nosso papel como sociedade e como profissional é ser o apoio desta mãe. E ser o apoio não é apontar o caminho mais fácil. Não é sugerir uma chupeta ou uma mamadeira para acalmar o bebê. É segurar na mão da mãe que amamenta com mastite, com fissura e mostrar que não é simples, mas que juntos vocês podem conseguir.

Ser apoio é não infantilizar a mãe. É chamá-la pelo nome. É mostrar que o corpo dela é capaz de produzir o alimento deste bebê. É entender o que é ser um recém-nascido e passar estas informações para mãe. Sim, bebês choram. Bebês precisam estar no colo de suas mães.

Os bebês já nascem sabendo: o toque de mãe tem poder de cura. Pode curar as dores do corpo e da alma.




Dra. Amanda Ibagy

CRM/SC: 12916

Pediatria: - RQE: 8317

Cancerologia Pediátrica - RQE: 9942

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